Quase metade dos médicos receita o que fábrica indica
Dados são de pesquisa inédita do Conselho Regional de Medicina de SP
Quatro em cada cinco médicos recebem visita de fabricantes; desses, 48% indicam remédios sugeridos pela indústria
João Brito - 27.mai.2010/Folhapress
Visitantes com brindes na feira Hospitalar; pesquisa revela que 93% dos médicos receberam benefícios de empresas
CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO
Quase metade (48%) dos médicos paulistas que recebem visitas de propagandistas de laboratórios prescreve medicamentos sugeridos pelos fabricantes.
Na área de equipamentos médico-hospitalares, a eficácia da visita é ainda maior: 71% dos profissionais da saúde acatam a recomendação da indústria.
Os dados, obtidos com exclusividade pela Folha, vêm de uma pesquisa inédita do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de SP), que avaliou o comportamento médico perante as indústrias de remédios, órteses, próteses e equipamentos médico-hospitalares.
Feito pelo Datafolha, o levantamento envolveu 600 médicos de várias especialidades, que representam o universo de 100 mil profissionais que atuam no Estado.
Do total, 80% deles recebem visitas dos propagandistas de medicamentos -em média, oito por mês.
A pesquisa revela que 93% dos médicos afirmam ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pagamento da indústria em valores até R$ 500.
Outros 37% declaram que ganharam presentes de maior valor, desde cursos a viagens para congressos internacionais.
RELAÇÃO CONTAMINADA
Para o Cremesp, um terço dos médicos mantém uma "relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos".
"Para boa parte [dos médicos], a única forma de atualização é a propaganda de laboratório. E com ela vem os presentes, os brindes. Isso tomou uma dimensão maior, mais promíscua, quando as receitas passaram a ser monitoradas", diz Luiz Alberto Bacheschi, presidente do Cremesp.
Em 2005, a Folha revelou que, em troca de brindes ou dinheiro, farmácias e drogarias brasileiras auxiliavam a indústria de remédios a vigiar as receitas prescritas por médicos.
Com acesso a cópias do receituário, representantes dos laboratórios pressionavam os profissionais a indicar seus produtos e os recompensavam por isso.
A prática não é ilegal, mas é considerada antiética. Afinal, quem pode pagar essa conta é o paciente. "Na troca de favores, o médico pode receitar um medicamento que tenha a mesma eficácia clínica do que o concorrente, mas que custa mais caro", explica o cardiologista Bráulio Luna Filho, coordenador da pesquisa do Cremesp.
APOIO
A maioria dos médicos (62%) avalia de forma positiva a relação com a indústria.
Para 73% deles, os congressos científicos não se viabilizariam sem apoio da indústria de medicamentos e de equipamentos.
Luna Filho pondera que, com a internet, o acesso a informações médicas está universalizado. "Essa conversa de que médico tem que ir para congresso no exterior para se atualizar é balela. Ele vai é para fazer turismo."
Existem várias normas -inclusive um artigo no novo Código de Ética Médica, uma resolução da Anvisa e um "código de condutas" da associação das indústrias- que tentam evitar o conflito de interesses na relação entre médicos e laboratórios.
"O problema é que não existe um controle rigoroso de nenhuma das partes", diz Volnei Garrafa, professor de bioética da UnB.
Folha de São Paulo, 31/05/2010
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segunda-feira, 31 de maio de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Subsidamos os planos, afirma médico
"Subsidiamos os planos", afirma médico
DE SÃO PAULO
O ginecologista e obstetra Sérgio Passos, 62, que tem consultório em São José dos Campos (SP), diz que os médicos acabam subsidiando os planos de saúde.
"No último mês do pré-natal, a grávida precisa vir ao consultório quase uma vez por semana. Os planos dizem que só pagam uma consulta a cada 30 dias. O que as operadoras dizem? "O problema é seu'", afirma"
Segundo ele, os planos menores pagam pela consulta de R$ 20 a R$ 27. E, por causa do valor, ele se descredenciou dessas operadoras.
"Como se mantém um consultório assim? Atendo apenas às seguradoras, que pagam R$ 45 por consulta. E esse valor ainda é pouco. Pela consulta particular, cobro R$ 150", afirma.
Passos, que é formado pela Unicamp, afirma que o maior problema são os partos. Em São José, diz, 90% das operadoras pagam R$ 270 pelo procedimento.
"Imagine se o parto dura dez horas. Não há profissional, encanador ou instalador de ar-condicionado que aceite trabalhar por R$ 27 a hora", compara.
No lugar dos 25 partos por mês de antigamente, Passos hoje realiza quatro.
"O recém-formado não quer obstetrícia. Além dos baixos valores, existe um risco duplo no parto -o da mãe e o do bebê. O recém-formado quer cirurgia plástica. Sabe por quê? Porque o plano não paga plástica."
Folha de 27/05/2010
DE SÃO PAULO
O ginecologista e obstetra Sérgio Passos, 62, que tem consultório em São José dos Campos (SP), diz que os médicos acabam subsidiando os planos de saúde.
"No último mês do pré-natal, a grávida precisa vir ao consultório quase uma vez por semana. Os planos dizem que só pagam uma consulta a cada 30 dias. O que as operadoras dizem? "O problema é seu'", afirma"
Segundo ele, os planos menores pagam pela consulta de R$ 20 a R$ 27. E, por causa do valor, ele se descredenciou dessas operadoras.
"Como se mantém um consultório assim? Atendo apenas às seguradoras, que pagam R$ 45 por consulta. E esse valor ainda é pouco. Pela consulta particular, cobro R$ 150", afirma.
Passos, que é formado pela Unicamp, afirma que o maior problema são os partos. Em São José, diz, 90% das operadoras pagam R$ 270 pelo procedimento.
"Imagine se o parto dura dez horas. Não há profissional, encanador ou instalador de ar-condicionado que aceite trabalhar por R$ 27 a hora", compara.
No lugar dos 25 partos por mês de antigamente, Passos hoje realiza quatro.
"O recém-formado não quer obstetrícia. Além dos baixos valores, existe um risco duplo no parto -o da mãe e o do bebê. O recém-formado quer cirurgia plástica. Sabe por quê? Porque o plano não paga plástica."
Folha de 27/05/2010
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