segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Resumo - Módulo II Profissão professor: dimensão ética e profissional

Módulo II
Profissão professor: dimensão ética e profissional

            O primeiro módulo deu destaque às políticas educacionais nacionais e paulista que concernem aos professores: ingresso, carreira e educação continuada. O segundo módulo pretende algumas características próprias da profissão professor e o papel que ela ocupa no cenário atual. Afirma que a atenção para a formação docente é dada pelos resultados das pesquisas em educação. Tais pesquisas constituem uma série histórica que aponta o papel do professor, mesmo dentre contextos sociais heterogêneos. A família e as condições socioeconômicas possuem vasto impacto, mas o papel do professor é predominate. Não se pode mudar a origem socioeconômica do aluno, mas se pode auxiliar com uma boa educação. A qualidade da profissão depende da relação que o professor estabelece com seus alunos e com as inovações do mundo atual. Há professores que conseguem fazer o aluno avançar independente de critérios de raça, economia e contexto social e há outros que não. Um aluno com professor fraco rende 50% menos que um mesmo aluno com um bom professor (estatístico W.Sanders). Professores dentre os 5% melhores fazem alunos avançarem 1 ano e meio, enquanto professores que se contam entre os 5% piores fazem alunos avançarem apenas meio ano em 12 meses. O professor com o qual o aluno teve aula é determinante para o desempenho. Há um cada vez maior foco e preocupação com relação a atuação docente e qualidade desta atuação. Por isto é importante conhecer e refletir sobre a profissão e o atual contexto em que ela se encontra. Deve-se
- iniciar um processo de reflexão sobre o que é ser professor
- lembrar e questionar nossa experiência como aluno da educação básica
-familiar-se com portifólio e contrato didático, recursos para o curso e para o trabalho com o aluno
-compreender as singularidades que marcam a profissão de professor
-sensibilizar-se para o fato de que a profissão possui suas tensões e seus problemas
De 190 milhões de habitantes, 60 milhões estão na escola. É um para cada 3, um grande contingente com sonhos e esperanças.
Curso aponta Cora Coralina (nasceu no atual município de Goiás, cursou apenas as 4 primeiras séries (com a mestre Silvina) e publicou seu primeiro livro somente aos 76 anos de idade) como mulher que pensou sobre a profissão professor. “Ser Professor é tocar o futuro”.
Módulo pede atividade sobre portifólio questionando o que é portifólio, seus usos e sua história. Há marco sobre o fato de que o homem é um ser de registro e de que o registro acompanha toda a nossa vida. No portifólio usamos o registro como modo de acumular saber/experiências e desenvolvermos um melhor caminhar. Devemos guardar aquilo que é mais importante, que é mais central, mais tocante.
Se o médico não precisa ser doente para se formar, nem o advogado réu para se formar, o professor inelutavelmente passa pela figura do aluno antes de se tornar mestre. Essa experiência como aluno determina em muito a sua prática, uma vez que acaba se inspirando nos professores que teve para formatar a sua própria identidade. Estabelecer uma boa relação com os alunos favorece o lado de quem aprende e de quem ensina. Atividade dois pede para que façamos uma comparação com o que tivemos de professor, o que somos e o que idealizamos da profissão. “não é fácil calçar os sapatos alheios”. O fato de ter sido aluno ajuda a desenvolver no docente a empatia, o sentido de compreensão e comunhão com o outro.
As características do docente se dividem em 4 grandes marcos: Domínios dos conteúdos e dos objetos de aprendizagem: sem domínio de conteúdo, professor não consegue fazer ligação com o passado, com o presente e com a realidade e nem estimular reflexão, inovar. Tornar o assunto vivo, divertido, instigante. Apresentá-lo de forma a ampliar a visão do discente. Capacidade de estimular ou envolver os alunos na aprendizagem: incutir gosto pelo saber, ter sensibilidade para talentos dos alunos, mostrar empenho para que o aluno aprenda, tornar o conteúdo mais atrativo. Capacidade de conduzir o processo de aprendizagem: capacidade de explicar bem, ser comunicativo, fazer aulas diferentes, não deixar dúvidas, fazer-se entendido, entender as dificuldades do aluno e procurar ajudá-lo, desenvolver projetos, levantar questões e temas novos, adotar formas de trabalho diferenciadas. Atitudes e comportamentos pessoais e relacionais: entusiasmo pela matéria, paixão pelo que faz, real interesse pelo aluno e interesse em ajudá-lo, sinceridade e transparência, severidade e exigência, habilidade em lidar com os comportamentos disruptivos.
Contrato Didático: a educação é um serviço de massa e voltada para a reprodução da vida social. A educação possui marcos regulatórios e a profissão também.  Contrato didático inclui o conjunto de normas e regras que permeiam a relação dos alunos e dos professores, as regras das escolas e etc.   Podemos definir contrato didático como a regulamentação, implícita ou explícita, das atividades que se manifestam no contexto escolar de forma intencional. São atividades de cunho pedagógico e planejadas para organizar as aulas com o objetivo de favorecer as aprendizagens.

A tripla relação conhecimento-professor-aluno é pautada por deveres, direitos e expectativas. Essa relação, por mais cuidado que se tome do ponto de vista da comunicação e das intenções didático-pedagógicas, corre sérios riscos de se traduzir em mal-entendido, que torna mais complexo o processo de ensino e de aprendizagem.

Quando utilizado, o contrato didático torna-se um instrumento bastante eficiente para que essa relação ajude o aluno a ter um desempenho escolar bem-sucedido. O contrato didático, por assim dizer, “profissionaliza” essa relação, sistematizando-a, deixando claras as regras do “jogo escolar”.

O contrato didático é hoje um tema presente em muitas publicações pedagógicas e nas normas e parâmetros nacionais oficiais. Em todas elas, o conceito de contrato didático é basicamente o mesmo: regras próprias da escola – ou de um professor e turma específicos que regulam, entre outras coisas, as relações que alunos e professores mantêm com o conhecimento curricular e com as atividades escolares, estabelecendo papéis dos diferentes atores do processo educativo e suas relações no contexto escolar. (MEC, 1999).

O contrato é o que garante o papel de cada um na sala de aula e quando não cumprido por alguma parte pode ser rediscutido ou reelaborado. Mas, se ele estiver posto desde o primeiro dia de aula, é mais fácil para todos desempenharem melhor o seu papel. As regras sempre existiram, mas não eram formalizadas. Ao ocorrer o combinado, a explicitação das regras, consegue atingir um patamar maior de consenso e aceitação. Os envolvidos reconhecem formalmente as suas responsabilidades, embora abranja outras questões, o foco é o de garantir o aprendizado. Deve haver flexibilização, para que as regras não percam sua funcionalidade e passem a ser cumpridas por sí mesmas. Contrato didático não é apenas um cartaz de regras expostas na parede e sim um acordo efetuado entre alunos e professores para garantir o aprendizado. O contrato didático não se limita as regras disciplinares, envolvem a discussão sobre o aprendizado, onde se reconhece que cabe ao professor organizar conteúdos transformando-os em objetos de aprendizagem e cabe aos alunos conseguir alcançar os objetivos pactuados no contrato. O contrato tem que ser negociado, se houve mundanças deve ser novamente negociado e não pode ser ambíguo e pouco tranparente. O aluno está na escola para aprender e este objetivo é inegociável. Muitas vezes demandas disciplinares, assistenciais, lúdicas, emocionais e outras tantas fazem com que se perda o foco na aprendizagem. È necessário que o professor tenha prioridades e objetivos razoáveis que lhe permitam um norte seguro. Quando tudo é previsto e tudo é prioritário, se perde o foco. A família precisa ser trabalhada, informada das aprendizagens e das atividades a serem desenvolvidas.
Um pouco de história da educação:  apresentam que a preocupação em se regular a educação vem desde a antiguidade e citam um trecho de Aristóteles em que ele fala sobre a desorientação sobre a finalidade, formas e conteúdos do ensino.
[...] Fica claro portanto que a legislação deve regular a educação e que esta deve ser obra da cidade. Não se deve deixar no esquecimento qual deve ser a educação e como se há de educar. Nos tempos modernos as opiniões sobre este tema diferem. Não há acordo sobre o que os jovens devem aprender, nem no que se refere à virtude nem quanto ao necessário para uma vida melhor. Tampouco está claro se a educação deveria preocupar-se mais com a formação do intelecto ou do caráter. Do ponto de vista do sistema educativo atual a investigação é confusa, e não há certeza alguma sobre se devem ser praticadas as disciplinas úteis para a vida ou as que tendem à virtude, ou as que se sobressaem do ordinário (pois todas elas têm seus partidários). No que diz respeito aos meios que conduzem à virtude não há acordo nenhum (de fato não honram, todos, a mesma virtude, de modo que diferem logicamente também sobre seu exercício).  Arístóteles – Política.

Na Grécia antiga não havia escola como local fixo, as aulas se davam ao ar livre e a escola fundada por Aristóteles, o Liceu, era chamada de peripatética, que significa, caminhante. No Brasil se usava preceptores, professores livres e os índio frequentaram os colégios jesúitas. Pombal expulsou os jesuítas e famílias ricas traziam gente da Europa para lecionar. Ina Von Binzer foi uma preceptora alemã que veio ao Brasil na década de 1880 trabalhar e escreveu cartas a sua amiga. Ensinava alemão, tinha 22 anos e lecionava para meninas de 19 e tinha que as chamar de Dona, alunas chegavam atrasadas, depois de repreendidas, alunas ficavam quietas e a preceptora achava tudo paralisante.
            Com o tempo, educação deixou a família e depois a igreja e se institucionalizou em escolas. Escola pública é invenção da modernidade, dos Estados nacionais, em que a educação é separada do privado, tirada da igreja e da família e passa a aglutinar os anseios da nova ordem política: laica, básica, pública e gratuita. A universidade surge na idade média, como expressão intelectual de um mundo extremamente hierarquizado. A escola básica e o professorado da educação básica surgem num período em que o ensino se expande para o povo. No brasil as instituiçoes escolares demoraram mais ainda para se desenvolverem. Permaneceram como elemento exclusivo de muito poucos e só depois da vinda de D.João VI que alguma coisa começa a mudar, dado o esforço de desenvolvimento local. Ele cria as primeiras instituições de ensino superior e secundário superior. Os governos regionais e locais é que se encarregam da educação, o princípio da descentralização é forte desde o início. A LDB é uma lei complementar que é um marco por determinar a questão da educação no país. Previa que a educação escolar devia vincular-se à pratica social e ao trabalho e definia como educação um processo formativo que ocorre na família, na escola, na convivência, no trabalho, nos movimentos sociais, nas organizações da sociedade e nas manifestações culturais. A educação escolar é aquela que ocorre em instituições próprias. Ser professor é ensinar na escola. Para Arendt, não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar. Uma educação sem aprendizagem degenera, é vazia e se transforma em méra retórica moral e emocional.
            Ao se institucionalizar, a docência deixa de ser atividade privada e se torna elemento complexo de uma rede complexa, que envolve relação entre gêneros, etárias, entre gerações diferentes. Surge uma estrutura que se hierarquiza, que se burocratiza, que se organiza, que massifica. As relações sociais internas passam a pesar no andamento da profissão docente tão fortemente quanto os grandes marcos regulatórios externos. A escola no Brasil só se universaliza no final do século XX, sempre marcada pela desigualdade e pela hierarquização interna, demorou um longo processo histórico para que a educação se escolarizasse e o mesmo se deu no Brasil. A preocupação com a expansão, com a permanência e com a qualidade, surge mais fortemente na década de 1930, com o manifesto dos pioneiros, com Anísio Teixeira como destaque, autor do Educação Não é Privilégio, onde coloca a importãncia da educação para o desenvolvimento do país e para a democracia. Para ele, a escola pública é a máquina que prepara para a democracia e ela só existirá quando existir tal.
            LDB diz que docente deve se incumbir de proposta pedagógica, plano de trabalho, zelo pela aprendizagem, estratégias de recuperação, ministrar os dias letivos, participar de discussões sobre planejamento e avaliação e formação, ajudar na articulação da escola com a família e a comunidade.
            Art. 13. Os docentes incumbir-se-ão de:

I.  participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
II.  elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
III.  zelar pela aprendizagem dos alunos;
IV.  estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento;
V.  ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional;
VI.  colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade
            A liberdade de ensinar é sobrepujada pelo direito de aprender. As exigências com relação ao trabalho docente vão mudando no decorrer do tempo. Embora permanência de marcos culturais conservadores, quadros da economia, da tecnologia, da expectativas sociais e outros mais vão impondo mudanças sociais com as quais a educação tem que lidar, causando mudanças educacionais mais ou menos profundas. O ensino, a aprendizagem e a gestão da sala de aula estão sendo afetados por mudanças causados pela nova sociedade da informação, que requer mudanças estruturais e curriculares a respeito do ensino. A LDB centrou foco nas competências, assim, os conteúdos curriculares não possuem valor em sí mesmos, mas são mais voltados para o desenvolvimento das competências. LDB demorou de 1988 até 1996 para ser aprovada, ficou 8 anos em discussão e sofreu influência do debate que ocorreu nos E.U.A e Europa. LDB e Diretrizes Curriculares Nacionais é que estabelecem as competências.
            LDB: aluno no final do médio deve compreender o significado das ciências, das artes e das letras. Compreender o significado de uma ciência é diferente de tratá-la como disciplina, somente. A definição de currículo retoma a autonomia da escola em trabalhar as aprendizagens que são previstas pela lei, também, autonomia em fazer a ponte entre o currículo e a realidade, se aproveitar da diversidade de recursos e tratamentos possíveis, e também autonomia na gestão da aprendizagem para diagnosticar e recuperar problemas. Competências, currículo, autonomia.
            Educação atual sofre com a falta de qualidade devido a expansão do ensino que colocou milhões de crianças que são as primeiras da família a ultrapassar os primeiros 4 anos de escolaridade. Existem quase 1.900.000 professores de educaçao básica no Brasil, dos quais 80% são mulheres e estão entre 24 e 48 anos. A crise da educação derrubou a imagem do professorado. No início do século XX, ser professor correspondia a ser magistrado. 

sábado, 13 de novembro de 2010

Responsabilização em educação

FSP 13/11/2010


FERNANDO VELOSO 

Responsabilização em educação

As experiências no Brasil são promissoras, mas é preciso levar em conta algumas dificuldades


COM O OBJETIVO de elevar o aprendizado dos alunos, vários países em desenvolvimento implantaram programas de reforma educacional nas últimas duas décadas. Mesmo países desenvolvidos com desempenho insatisfatório, como os Estados Unidos, têm introduzido mudanças profundas em seu sistema educacional.
O conceito de responsabilização é central nas experiências de reforma educacional. A ideia é fazer com que os atores envolvidos no processo educacional sejam cobrados pelo desempenho dos alunos e, dessa forma, sejam criados incentivos para a melhoria do aprendizado.
Uma maneira de fazer isso é através da divulgação pública das notas das escolas em exames padronizados, com o objetivo de gerar pressão por parte de pais e gestores sobre as escolas com piores resultados.
Em geral, no entanto, são introduzidos mecanismos explícitos de recompensas e punições atrelados às metas educacionais, como a concessão de bônus para os professores de escolas que elevam o aprendizado de seus alunos.
No Brasil, foi criado em 2007 um sistema de responsabilização nacional, que estabeleceu metas de desempenho no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) para cada escola pública, município e unidade da Federação até 2021.
Também foram criadas metas intermediárias a cada dois anos, para que seja acompanhada a trajetória em direção ao cumprimento das metas de longo prazo.
Além disso, nos últimos anos foram criados sistemas de responsabilização em alguns Estados e municípios. Em 2008, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo criou o Programa de Qualidade na Escola.
Foram estabelecidas metas de desempenho para cada escola estadual até 2030, às quais estão associadas metas anuais. Além disso, foi implantado um sistema de bônus de desempenho para diretores, professores e funcionários, associado ao cumprimento das metas.
No mesmo ano, foram criadas metas para cada escola estadual de Pernambuco e foi instituído o programa de Bônus de Desempenho Educacional, que premia escolas que cumpram pelo menos 50% da meta. Para as escolas que atingem mais de 50% da meta, o bônus é proporcional ao grau de cumprimento. Além disso, o valor total a ser pago é fixo, de modo que o valor recebido por uma escola depende do desempenho das outras escolas.
O sistema de metas e premiação de desempenho escolar de Minas Gerais está inserido num contexto mais amplo de reforma do Estado, através do programa Acordo de Resultados.
No caso da educação, os prêmios dependem do cumprimento das metas da escola, de sua superintendência regional de ensino e da Secretaria de Educação. Desde o início de 2009, iniciativas similares têm sido adotadas na rede municipal de educação do Rio de Janeiro. Foi criada a Prova Rio, uma avaliação externa anual de todas as escolas municipais, e foi implementado um sistema de premiação de diretores, professores e funcionários das escolas que obtiveram melhores resultados.
As experiências de responsabilização no Brasil são promissoras, mas é preciso levar em conta algumas dificuldades e alguns detalhes no desenho desse tipo de sistema. Por exemplo, é preciso que o exame avalie de forma adequada as competências cognitivas que os alunos devem adquirir em cada série e nível de ensino.
Além disso, deve ser levado em conta que as notas dos alunos em exames padronizados são muito relacionadas às características socioeconômicas de suas famílias, como renda e educação dos pais. Para que os responsáveis por bons resultados sejam premiados de forma adequada, é preciso que seja considerada a contribuição da escola para o desempenho do aluno.
Finalmente, para que os incentivos sejam eficazes, é preciso que os professores tenham a formação adequada para melhorar o desempenho dos alunos.
Para isso, é preciso alinhar os programas de formação inicial e continuada com o conjunto de competências que os professores precisam adquirir para cumprir as metas de aprendizado dos alunos.


FERNANDO VELOSO, 43, economista e professor do Ibmec/RJ, escreve mensalmente neste espaço, aos sábados.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Por Mais Impostos

VLADIMIR SAFATLE




Por mais impostos



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A tributação brasileira não é a mais alta do mundo; se ela merece algum prêmio, é o de carga mais injusta

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TODAS AS VEZES que uma campanha eleitoral se inicia, a sociedade brasileira é invadida pelo eterno mantra a respeito da reforma tributária. Como todo mantra, ele gira em torno de uma nota só: a carga tributária brasileira é inaceitável, é a "maior do mundo", o cidadão brasileiro é obrigado a subsidiar um Estado gastador e corrupto, e por aí vai. No entanto, qualquer pessoa que realmente leve a sério problemas tributários sabe que tais afirmações são simplesmente falsas.

Primeiro, a carga tributária brasileira não é a mais alta do mundo.

Uma comparação honesta com países como França e Alemanha serve para desmistificar o mantra. Se há algum prêmio que a tributação brasileira merece é, na verdade, o de carga mais injusta. Como a base da arrecadação está vinculada a tributos sobre consumo e produção, são as pessoas de menor renda que acabam sentindo mais o peso dos impostos. Enquanto isto, um banqueiro paga a mesma porcentagem de Imposto de Renda que um miserável professor, ou seja, 27,5%.

Neste sentido, qualquer discussão séria a respeito da reforma tributária deveria começar por propostas que visassem, paulatinamente, substituir as tributações sobre consumo e produção por tributações progressivas sobre renda.

Este seria um capítulo fundamental para a implementação de políticas concretas de combate à desigualdade social.

Tal substituição passa, entre outras coisas, pelo aumento de impostos para os 2% mais ricos da população, assim como criação de mecanismos como impostos sobre grandes fortunas, impostos sobre herança e impostos sobre consumo de luxo. Ela passa, também, pela retomada de impostos como a CPMF: talvez o imposto mais justo criado no Brasil, já que tributa mais aqueles que têm grandes operações financeiras e visa subvencionar programas sociais. Neste sentido, talvez seja o caso de dizer: no Brasil, precisamos de mais impostos para os ricos e mais benefícios sociais para os pobres.

É claro que haverá aqueles que se indignarão afirmando que o Estado é mau gerente, que comparar os impostos no Brasil e em países europeus é desonesto, já que tais países oferecem serviços sociais de qualidade a seus cidadãos.

Bem, sobre o segundo ponto, valeria a pena simplesmente lembrar que eles podem fornecer tais serviços exatamente porque os impostos são altos. Além do que, em um país continental como o Brasil, onde, por exemplo, criar um sistema público de saúde significa desenvolver uma estrutura logístico-gerencial para um território com a extensão de toda a Europa (à exceção da Rússia), não haverá melhoria dos serviços públicos sem grandes investimentos estatais.

Por outro lado, a criação de um corpo gerencial estatal de alto nível e estável deve ser visto como um dos grandes desafios da política de nosso tempo. Mas não é pregando o desmonte do Estado que faremos isto. Até porque o mundo seria muito mais simples se problemas gerenciais fossem apanágio apenas do Estado. Pelo que se sabe, Lehman Brothers, Citibank, AIG, General Motors não são nem eram exatamente empresas estatais.







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VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP
 
 
FSP/ 06/09/2010

domingo, 22 de agosto de 2010

Resumo do módulo II - Curso de Formação

                                                                      
O primeiro módulo deu destaque às políticas educacionais nacionais e paulista que concernem aos professores: ingresso, carreira e educação continuada. O segundo módulo pretende algumas características próprias da profissão professor e o papel que ela ocupa no cenário atual. Afirma que a atenção para a formação docente é dada pelos resultados das pesquisas em educação. Tais pesquisas constituem uma série histórica que aponta o papel do professor, mesmo dentre contextos sociais heterogêneos. A família e as condições socioeconômicas possuem vasto impacto, mas o papel do professor é predominate. Não se pode mudar a origem socioeconômica do aluno, mas se pode auxiliar com uma boa educação. A qualidade da profissão depende da relação que o professor estabelece com seus alunos e com as inovações do mundo atual. Há professores que conseguem fazer o aluno avançar independente de critérios de raça, economia e contexto social e há outros que não. Um aluno com professor fraco rende 50% menos que um mesmo aluno com um bom professor (estatístico W.Sanders). Professores dentre os 5% melhores fazem alunos avançarem 1 ano e meio, enquanto professores que se contam entre os 5% piores fazem alunos avançarem apenas meio ano em 12 meses. O professor com o qual o aluno teve aula é determinante para o desempenho. Há um cada vez maior foco e preocupação com relação a atuação docente e qualidade desta atuação. Por isto é importante conhecer e refletir sobre a profissão e o atual contexto em que ela se encontra. Deve-se
- iniciar um processo de reflexão sobre o que é ser professor
- lembrar e questionar nossa experiência como aluno da educação básica
-familiar-se com portifólio e contrato didático, recursos para o curso e para o trabalho com o aluno
-compreender as singularidades que marcam a profissão de professor
-sensibilizar-se para o fato de que a profissão possui suas tensões e seus problemas
De 190 milhões de habitantes, 60 milhões estão na escola. É um para cada 3, um grande contingente com sonhos e esperanças.
Curso aponta Cora Coralina (nasceu no atual município de Goiás, cursou apenas as 4 primeiras séries (com a mestre Silvina) e publicou seu primeiro livro somente aos 76 anos de idade) como mulher que pensou sobre a profissão professor. “Ser Professor é tocar o futuro”.
Módulo pede atividade sobre portifólio questionando o que é portifólio, seus usos e sua história. Há marco sobre o fato de que o homem é um se de registro e de que o registro acompanha toda a nossa vida. No portifólio usamos o registro como modo de acumular saber/experiências e desevolvermos uma melhor caminhar. Devemos guardar aquilo que é mais importante, que é mais central, mais tocante.
Se o médico não precisa ser doente para se formar, enm o advogado réu para se formar, o professor inelutavelmente passa pela figura do aluno antes de se tornar mestre. Essa experiência como aluno determina em muito a sua prática, uma vez que acaba se inspirando nos professores que teve para formatar a sua própria identidade. Estabelecer uma boa relação com os alunos favorece o lado de quem aprende e de quem ensina. Atividade dois pede para que façamos uma comparação com o que tivemos de professor, o que somos e o que idealizamos da profissão. “não é fácil calçar os sapatos alheios”. O fato de ter sido professor ajuda a desenvolver no professor a empatia, o sentido de compreensão e comunhão com o outro.
As características do docente se dividem em 4 grandes marcos: Domínios dos conteúdos e dos objetos de aprendizagem: sem domínio de conteúdo, professor não consegue fazer ligação com o passado, com o presente e com a realidade e nem estimular reflexão, inovar. Tornar o assunto vivo, divertido, instigante. Apresentá-lo de formar a ampliar a visão do discente. Capacidade de estimular ou envolver os alunos na aprendizagem: incutir gosto pelo saber, ter sensibilidade para talentos dos alunos, mostrar empenho para que o aluno aprenda, tornar o conteúdo mais atrativo. Capacidade de conduzir o processo de aprendizagem: capacidade de explicar bem, ser comunicativo, fazer aulas diferentes, não deixar dúvidas, fazer-se entendido, entender as dificuldades do aluno e procurar ajudá-lo, desenvolver projetos, levantar questões e temas novos, adotar formas de trabalho diferenciadas. Atitudes e comportamentos pessoais e relacionais: entusiasmo pela matéria, paixão pelo que faz, real interesse pelo aluno e interesse em ajudá-lo, sinceridade e transparência, severidade e exigência, habilidade em lidar com os comportamentos disruptivos.
Contrato Didático: a educação é sum serviço de massa e voltada para a reprodução da vida social. A educação possui marcos regulatórios e a profissão também. Contrato didático inclui o conjunto de normas e regras que permeiam a relação dos alunos e dos professos, as regras das escolas e etc. Podemos definir contrato didático como a regulamentação, implícita ou explícita, das atividades que se manifestam no contexto escolar de forma intencional. São atividades de cunho pedagógico e planejadas para organizar as aulas com o objetivo de favorecer as aprendizagens.

A tripla relação conhecimento-professor-aluno é pautada por deveres, direitos e expectativas. Essa relação, por mais cuidado que se tome do ponto de vista da comunicação e das intenções didático-pedagógicas, corre sérios riscos de se traduzir em mal-entendido, que torna mais complexo o processo de ensino e de aprendizagem.

Quando utilizado, o contrato didático torna-se um instrumento bastante eficiente para que essa relação ajude o aluno a ter um desempenho escolar bem-sucedido. O contrato didático, por assim dizer, “profissionaliza” essa relação, sistematizando-a, deixando claras as regras do “jogo escolar”.

O contrato didático é hoje um tema presente em muitas publicações pedagógicas e nas normas e parâmetros nacionais oficiais. Em todas elas, o conceito de contrato didático é basicamente o mesmo: regras próprias da escola – ou de um professor e turma específicos que regulam, entre outras coisas, as relações que alunos e professores mantêm com o conhecimento curricular e com as atividades escolares, estabelecendo papéis dos diferentes atores do processo educativo e suas relações no contexto escolar. (MEC, 1999).

O contrato é o que garante o papel de cada um na sala de aula e quando não cumprido por alguma parte pode ser rediscutido ou reelaborado. Mas, se ele estiver posto desde o primeiro dia de aula, é mais fácil para todos dsempenharem melhor o seu papel. As regras sempre existiram, mas não eram formalizadas. Ao ocorrer o combinado, a explicitação das regras, consegue atingir um patamar maior de consenso e aceitação. Os envolvidos reconhecem formalmente as suas responsabilidades, embora abranja outras questões, o foco é o de garantir o aprendizado. Deve haver flexibilização, para que as regras não percam sua funcionalidade e passem a ser cumpridas por sí mesmas. Contrato didático não é apenas um cartaz de regras expostas na parede e sim um acordo efetuado entre alunos e professores para garantir o aprendizado. O contrato didático não se limita as regras disciplinares, envolvem a discussão sobre o aprendizado, onde se reconhece que cabe ao professor organizar conteúdos transformando-os em objetos de aprendizagem e cabe aos alunos conseguir alcançar os objetivos pactuados no contrato. O contrato tem que ser negociado, se houve mundanças deve ser novamente negociado e não pode ser ambíguo e pouco tranparente. O aluno está na escola para aprender e este objetivo é inegociável. Muitas vezes demandas disciplinares, assistenciais, lúdicas, emocionais e outras tantas fazem com que se perda o foco na aprendizagem. È necessário que o professor tenha prioridades e objetivos razoáveis que lhe permitam um norte seguro. Quando tudo é previsto e tudo é prioritário, se perde o foco. A família precisa ser trabalhada, informada das aprendizagens e das atividades a serem desenvolvidas.
Um pouco de história da educação: apresentam que a preocupação em se regular a educação vem desde a antiguidade e citam um trecho de Aristóteles em que ele fala sobre a desorientação sobre a finalidade, formas e conteúdos do ensino.
[...] Fica claro portanto que a legislação deve regular a educação e que esta deve ser obra da cidade. Não se deve deixar no esquecimento qual deve ser a educação e como se há de educar. Nos tempos modernos as opiniões sobre este tema diferem. Não há acordo sobre o que os jovens devem aprender, nem no que se refere à virtude nem quanto ao necessário para uma vida melhor. Tampouco está claro se a educação deveria preocupar-se mais com a formação do intelecto ou do caráter. Do ponto de vista do sistema educativo atual a investigação é confusa, e não há certeza alguma sobre se devem ser praticadas as disciplinas úteis para a vida ou as que tendem à virtude, ou as que se sobressaem do ordinário (pois todas elas têm seus partidários). No que diz respeito aos meios que conduzem à virtude não há acordo nenhum (de fato não honram, todos, a mesma virtude, de modo que diferem logicamente também sobre seu exercício). Arístóteles – Política.

Na Grécia antiga não havia escola como local fixo, as aulas se davam ao ar livre e a escola fundada por Aristóteles, o Liceu, era chamada de peripatética, que significa, caminhante. No Brasil se usava preceptores, professores livres e os índio frequentaram os colégios jesúitas. Pombal expulsou os jesuítas e famílias ricas traziam gente da Europa para lecionar. Ina Von Binzer foi uma preceptora alemã que veio ao Brasil na década de 1880 trabalhar e escreveu cartas a sua amiga. Ensinava alemão, tinha 22 anos e lecionava para meninas de 19 e tinha que as chamar deDona, alunas chegavam atrasadas, depois de repreendidas, alunas ficavam quietas e a preceptora achava tudo paralisante.
Com o tempo, educação deixou a família e depois a igreja e se institucionalizou em escolas. Escola pública é invenção da modernidade, dos Estados nacionais, em que a educação é separada do privado, tirada da igreja e da família e passa a aglutinar os anseios da nova ordem política: laica, básica, pública e gratuita. A universidade surge na idade média, como expressão intelectual de um mundo extremamente hierarquizado. A escola básica e o professorado da educação básica surgem num período em que o ensino se expande para o povo. No brasil as instituiçoes escolares demoraram mais ainda para se desenvolverem. Permaneceram como elemento exclusivo de muito poucos e só depois da vinda de D.João VI que alguma coisa começa a mudar, dado o esforço de desenvolvimento local. Ele cria as primeiras instituições de ensino superior e secundário superior. Os governos regionais e locais é que se encarregam da educação, o princípio da descentralização é forte desde o início. A LDB é uma lei complementar que é um marco por determinar a questão da educação no país. Previa que a educação escolar devia vincular-se à pratica social e ao trabalho e definia como educação um processo formativo que ocorre na família, na escola, na convivência, no trabalho, nos movimentos sociais, nas organizações da sociedade e nas manifestações culturais. A educação escolar é aquela que ocorre em instituições próprias. Ser professor é ensinar na escola. Para Arendt, não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar. Uma educação sem aprendizagem degenera, é vazia e se transforma em méra retórica moral e emocional.
Ao se institucionalizar, a docência deixa de ser atividade privada e se torna elemento complexo de uma rede complexa, que envolve relação entre gêneros, etárias, entre gerações diferentes. Surge uma estrutura que se hierarquiza, que se burocratiza, que se organiza, que massifica. As relações sociais internas passam a pesar no andamento da profissão docente tão fortemente quanto os grandes marcos regulatórios externos. A escola no Brasil só se universaliza no final do século XX, sempre marcada pela desigualdade e pela hierarquização interna, demorou um longo processo histórico para que a educação se escolarizasse e o mesmo se deu no Brasil. A preocupação com a expansão, com a permanência e com a qualidade, surge mais fortemente na década de 1930, com o manifesto dos pioneiros, com Anísio Teixeira como destaque, autor do Educação Não é Privilégio, onde coloca a importãncia da educação para o desenvolvimento do país e para a democracia. Para ele, a escola pública é a máquina que prepara para a democracia e ela só existirá quando existir tal.
LDB diz que docente deve se incumbir de proposta pedagógica, plano de trabalho, zelo pela aprendizagem, estratégias de recuperação, ministrar os dias letivos, participar de discussões sobre planejamento e avaliação e formação, ajudar na articulação da escola com a família e a comunidade.
Art. 13. Os docentes incumbir-se-ão de:

I. participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
II. elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
III. zelar pela aprendizagem dos alunos;
IV. estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento;
V. ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional;
VI. colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade
A liberdade de ensinar é sobrepujada pelo direito de aprender. As exigências com relação ao trabalho docente vão mudando no decorrer do tempo. Embora permanência de marcos culturais conservadores, quadros da economia, da tecnologia, da expectativas sociais e outros mais vão impondo mudanças sociais com as quais a educação tem que lidar, causando mudanças educacionais mais ou menos profundas. O ensino, a aprendizagem e a gestão da sala de aula estão sendo afetados por mudanças causados pela nova sociedade da informação, que requer mudanças estruturais e curriculares a respeito do ensino. A LDB centrou foco nas competências, assim, os conteúdos curriculares não possuem valor em sí mesmos, mas são mais voltados para o desenvolvimento das competências. LDB demorou de 1988 até 1996 para se aprovada, ficou 8 anos em discussão e sofreu influência do debate que ocorreu nos E.U.A e Europa. LDB e Diretrizes Curriculares Nacionais é que estabelecem as competências.
LDB: aluno no final do médio deve compreender o significado do das ciências, das artes e das letras. Compreender o significado de uma ciência é diferente de tratá-la como disciplina, somente. A definição de currículo retoma a autonomia da escola em trabalhar as aprendizagem que são previstas pela lei, também, autonomia em fazer a ponte entre o currículo e a realidade, se aproveitar da diversidade de recursos e tratamentos possíveis, e também autonomia na gestão da aprendizagem para diagnosticar e recuperar problemas. Competências, currículo, autonomia.
Educação atual sofre com a falta de qualidade devido a expansão do ensino que colocou milhões de crinanças que são as primeiras da família a ultrapassar os primeiros 4 anos de escolaridade. Existem quase 1.900.000 professores de educaçao básica no Brasil, dos quais 80% são mulheres e estão entre 24 e 48 anos. A crise da educação derrubou a imagem do professorado. No início do século XX, ser professor correspondia a ser magistrado.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Mais perveersão na educação brasileira

Mais perversão na educação brasileira


NAOMAR DE ALMEIDA FILHO





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A maioria pobre não somente financia a educação superior mas também subsidia a educação básica privada da minoria social privilegiada

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Na sociedade contemporânea, cada vez mais complexa e diversificada, formação universitária aparece como fator de ascensão social.

Neste Brasil de absurdos e iniquidades, educação superior supostamente implica uma profunda perversão social.

Eis o argumento: no nível básico de ensino, aos pobres, por seu reduzido poder econômico, resta a rede pública, com precária infraestrutura e docentes desmotivados por baixos salários.

Ao contrário, as camadas médias e altas da sociedade, por capacidade financeira própria, financiam a educação de seus jovens em escolas privadas, com melhores condições de vencer o filtro competitivo do vestibular.

Nas universidades públicas, recebem gratuitamente educação superior de qualidade, enquanto os pobres são obrigados a pagar caro em instituições privadas.

Essa análise oculta dois equívocos e uma falácia.

O primeiro equívoco refere-se ao conceito de gratuidade, como se pudesse existir alguma atividade, realizada com eficiência, sem custos estruturais e operacionais.

A universidade pública, dada sua missão social de excelência acadêmica, é cara e longe está de ser gratuita. É, de fato, pré-paga pelo orçamento público, constituído por impostos, taxas e também por contribuições sociais.

O segundo equívoco é achar que, "por capacidade financeira própria", as classes abonadas preparam seus jovens para ter acesso à universidade pública.

Isso não é verdade. No Brasil, importante parcela das despesas educacionais retorna às famílias com maior nível de renda sob a forma de descontos e restituição de impostos; dessa forma, enorme (mas oculta) renúncia fiscal subsidia a educação privada de seus filhos, o que lhes facilita predominar na educação superior pública.

A falácia encontra-se na premissa de que o Estado é sustentado por toda a sociedade, igualmente.

A estrutura tributária brasileira é, em si, importante fator de desigualdade social. Proporcionalmente à renda, os pobres contribuem para custear a máquina estatal, em todos os níveis e setores de governo, mais do que contribuintes de melhor situação econômica.

Dados do Ipea revelam que os mais pobres pagam 49 % de sua renda em impostos, enquanto os mais ricos contribuem com apenas 26 % da sua receita.

Ciclo vicioso, tripla perversão social. A maioria pobre não só financia a educação superior mas também subsidia a educação básica privada da minoria social privilegiada, que, não fossem as ações afirmativas, ocuparia a maior parte das vagas públicas.

Do ponto de vista da reprodução social, a formação daqueles oriundos da classe social detentora de poder político e econômico se dá, nas universidades públicas, em carreiras de maior retorno financeiro e prestígio social.

Por analogia ao conceito de mais-valia, a ideia de mais-perversão pode ser útil para entender e ajudar a superar a iniquidade social que tanto nos envergonha.

O estancamento da renúncia fiscal de despesas escolares contribuirá para resgatar a dívida social da educação, entrave ao desenvolvimento econômico e humano de nosso país.







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NAOMAR DE ALMEIDA FILHO, doutor em epidemiologia, pesquisador 1-A do CNPq, é reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e membro do Observatório da Equidade do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social).

 
20/07/2010 FSP

Religião não segura casamento

Religião não evita fim do casamento


Proporção de mulheres separadas praticamente não se altera conforme opção de igreja, aponta pesquisa



Sucesso da união está mais ligado a fatores como distribuição das tarefas familiares e domésticas entre o casal



HÉLIO SCHWARTSMAN

ARTICULISTA DA FOLHA



O que Deus uniu o homem separa. Um cruzamento entre dados de estado conjugal e religião realizado pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp a pedido da Folha mostra que a fé não segura casamentos.

A proporção das mulheres separadas, desquitadas ou divorciadas de cada igreja é muito similar à distribuição das crenças pela população.

A base utilizada foi a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, de 2006, do Ministério da Saúde e abarca mulheres em idade reprodutiva (entre 15 e 49 anos).

Se é relativamente fácil constatar que a fé não mantém casais unidos, bem mais difícil é descobrir o que o faz.

Segundo a pesquisadora Joice Melo Vieira, que cruzou os dados, estudos no Brasil e no exterior mostram que a preocupação é estar em relações satisfatórias. Como a separação já não é tão estigmatizada, o fim da união é sempre uma possibilidade quando as coisas vão mal.

No final, relata Vieira, o que faz casais à beira da separação pensarem duas vezes são a situação dos filhos e a questão financeira. Como hoje mais mulheres trabalham, a dependência econômica não segura mais o casamento. Já os filhos o fazem apenas por tempo limitado.

Estudos europeus apontam que durante a gravidez e o primeiro ano de vida da criança é mais baixa a chance de os pais se separarem.

Mas, à medida que os filhos crescem, esse deixa de ser um fator importante, e a probabilidade de separação volta a ser igual à de casais que nunca tiveram filhos.



RELAÇÃO IGUALITÁRIA

Embora não haja uma receita para o sucesso da união, existem fatores preponderantes. O mais eficiente é a distribuição das tarefas familiares e domésticas entre o homem e a mulher. Quanto mais igualitária for, menores são os riscos de ruptura.

A maioria dos religiosos ouvidos pela Folha não se surpreendeu com os dados.

Para o padre Eduardo Henriques, a religião "entra em diálogo com outros elementos da cultura e há níveis diferentes de adesão à fé". Há desde o sujeito que se casa na igreja só para contentar a família até os que realmente creem no sacramento.

O pastor batista Adriano Trajano é mais veemente: "Religião não segura nada. O casamento deve estar seguro por amor, confiança, caráter e dedicação. Nenhuma dessas virtudes é conferida pela religião. O indivíduo precisa ser educado nelas".

Marcos Noleto, teólogo adventista, diz que o abismo entre teoria e prática vai além do casamento: "Em números redondos: só 20% são dizimistas; 30% frequentam os cultos do meio de semana".

Uma exceção parcial é o pastor luterano Waldemar Garcia Jr.: "As estatísticas podem até afirmar algo diferente, mas vejo que a religião auxilia na manutenção saudável das relações. Temos um trabalho de aconselhamento, com função preventiva".



Folha, 22/07/2010

domingo, 20 de junho de 2010

Programa qualifica docente e melhora nota de estudantes

Programa qualifica docente e melhora nota de estudantes
FSP 20/06/2010


Evolução no desempenho dos alunos ocorreu após empresários adotarem escolas públicas em São Paulo



Resultado só apareceu, porém, quando grupo passou a capacitar professores, em vez de investir só em obras



FÁBIO TAKAHASHI

DE SÃO PAULO



Por anos, empresários que "adotaram" escolas públicas em SP gastaram milhares de reais em reformas de salas de aula, compras de computadores e obras em quadras. As notas dos estudantes, porém, seguiam empacadas.

Há três anos, o programa decidiu mudar. A capacitação dos professores passou a ter mais destaque, os alunos tiveram mais recuperações.

O resultado apareceu neste ano. Na avaliação estadual divulgada em fevereiro, que considera notas em português e matemática, 90% das escolas participantes da parceria superaram a meta da Secretaria da Educação no Idesp (índice do governo).

"As condições de trabalho estavam melhores, e as pessoas, mais felizes. Mas o impacto só veio mesmo quando focamos o pedagógico", afirma Jair Ribeiro, executivo da CPM Braxis e um dos coordenadores do programa, o Parceiros da Educação.

O pouco impacto da infraestrutura das escolas nas notas já apareceu em outros levantamentos. A Folha, por exemplo, constatou que CEUs e escolas de lata tinham desempenhos semelhantes na Prefeitura de SP.



PAISAGISMO

Adotada pelo Grupo ABC, que tem o publicitário Nizan Guanaes como presidente, a escola Francisco Brasiliense Fusco, no Campo Limpo (zona sul de SP), teve o telhado reformado, o que tirou pombas e ratos dos corredores.

A sala de informática, que tinha dez computadores antigos, passou a ter 40 modernos. Nizan, que também é colunista da Folha, chamou profissionais que trabalharam no projeto da sua própria casa para a reforma.

Limpo e com arquitetura nova, o colégio era um daqueles que não decolavam nas notas. De 2007 para 2008, o índice da quarta série recuou. Naquele ano, a formação de docentes se intensificou. E o Idesp subiu 50%.

Como as demais escolas do programa, ela passa por avaliações da Fundação Cesgranrio, que apontam exatamente quais são as dificuldades dos professores, o que motivam cursos específicos.

Em matemática, as maiores demandas nos colégios são em geometria, operações e lógica. Em português, produção de textos. "Os professores têm dificuldades básicas", diz Lúcia Fávero, diretora-executiva do projeto.

A atuação nas escolas não é totalmente pacífica. Segundo profissionais da ONG, alguns professores veem interferência em seu trabalho.

Há 82 escolas "adotadas". O programa espera chegar a 500, quase 10% da rede. "É impossível o Estado dar atenção individualizada. Queremos potencializar os recursos públicos", diz Ribeiro, um dos coordenadores.

Segundo ele, as empresas participantes -como Pão de Açúcar, Bradesco e Porto Seguro- não têm benefício financeiro. O gasto anual médio é de R$ 100 mil. E as companhias convivem com dificuldades da rede pública, como falta de professores.

No último dia 27 à tarde, quando a Folha visitou a escola no Campo Limpo, três classes estavam sem aula, por falta de professor.

O milagre de Santa Isabel

O milagre de Santa Isabel




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Não existe segredo: gente talentosa, com garra, frequentando as melhores escolas, só pode se destacar

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DURANTE um encontro com professores na sexta-feira passada, no Centro de Convenções da Bolsa de Valores, no Rio de Janeiro, Marco Antônio Lopes, um rapaz de apenas 18 anos de idade, começou sua apresentação tentando desfazer a estranheza da plateia: "Vocês devem estar achando que eu sou um pouco jovem para ser professor"."

Em poucos minutos, ao relatar sua história, ele fez a desconfiança dos ouvintes converter-se em admiração. Marco Antônio está por trás de uma proeza realizada em Santa Isabel, uma pequena cidade da região metropolitana de São Paulo, onde vivem 50 mil habitantes. Lá, estudantes estão conquistando medalhas em olimpíadas brasileiras de matemática, de informática, de astronomia e de física.

Só para oferecer ao leitor uma simples medida de comparação, cito cidades como a rica São José dos Campos, que, com 650 mil habitantes e centros de excelência em tecnologia, tem 30 finalistas na Olimpíada Brasileira de Informática, e Campinas, sede de empresas de alta tecnologia e um dos principais centros universitários brasileiros, que, com 1 milhão de habitantes, não tem sequer um finalista nessa competição. Santa Isabel, por sua vez, sai à frente, com 25 finalistas.

O milagre educacional de Santa Isabel é um dos símbolos de que dispomos para descortinar um dos maiores desperdícios brasileiros -o desperdício de talentos.













Filho de uma família de baixo poder aquisitivo, Marco Antônio recebeu o apoio do Ismart (Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos), um programa criado para revelar talentos, bancado por empresários. Ele entrou no ITA e, neste ano, foi aceito pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology).

Como sentia a necessidade de retribuir o apoio obtido, criou em Santa Isabel, sua cidade, um projeto para formar jovens, tornando-os aptos a disputar as olimpíadas escolares. Já tem 150 alunos e o apoio entusiástico de professores do ITA, que se dispuseram a abraçar essa causa. Desde 2005, Marco Antônio já vinha arrebanhando vários desses prêmios, dentro e fora do Brasil.

Alunos de seu programa são descobertos e apoiados pelo Ismart para entrar nas melhores faculdades -alguns deles, por sua vez, transformam-se em monitores. É um monumental círculo virtuoso.











A imensa maioria dos beneficiados do Ismart, embora de origem pobre, entra nas melhores faculdades brasileiras. Esses jovens recebem apoio para ingressar em boas escolas privadas, como os colégios Santo Américo, Bandeirantes ou Santa Cruz, em São Paulo, e o Colégio de São Bento ou o Santo Inácio, no Rio.

"São alunos com altas habilidades de aprendizagem, uma enorme força de vontade e, em geral, um extraordinário apoio familiar", explica Mauro Aguiar, diretor-presidente do Colégio Bandeirantes. "Por isso, professores disputam a oportunidade de dar aulas para eles."

Não existe aqui nenhum segredo: gente talentosa, com garra, frequentando as melhores escolas, só pode mesmo se destacar. Rapidamente, vão desaparecendo os buracos deixados no passado pela educação pública deficiente.

Paradoxalmente, mede-se por esse sucesso o tamanho de um fracasso. O Ismart atendeu, no ano passado, 526 pessoas. Um de seus grandes méritos é mostrar o que perdemos todos os dias. Estima-se que exista, no Brasil, algo em torno de 1,5 milhão a 2,5 milhões de brasileiros com altas habilidades em alguma área do conhecimento -da música à engenharia, passando pelo esporte, área em que têm surgido excelentes jogadores de futebol.

A falta de apoio começa na escola e se propaga na família. Não se consegue, nem na rede pública nem, muitas vezes, na particular, cuidar adequadamente dos alunos medianos, muito menos dos alunos diferenciados.

Imagine se conseguíssemos descobrir e estimular cientistas na mesma proporção em que têm sido descobertos e estimulados jogadores de futebol, para os quais a nação parece ter um olhar mais atento, capaz de revelar e nutrir talentos.

Teríamos o milagre de Santa Isabel -mais garotos revelando inteligência em olimpíadas escolares e, como Marco Antônio, servindo de exemplo de sucesso.



PS- Coloquei na internet (www.dimenstein.com.br) o programa do Ismart e depoimentos de alguns de seus beneficiários.

Dimenstein
Folha 20/06/2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Suicídios expõem vida em fábricas da China

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Operários enfrentam xingamentos e treino militar

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Por DAVID BARBOZA

SHENZHEN, China - A primeira morte na fábrica neste ano foi em 23 de janeiro.

O corpo do operário Ma Xiangqian, 19, foi achado às 4h30 em frente ao prédio do seu alojamento. A polícia concluiu que ele se atirou de um andar alto.

Parentes dele, inclusive uma irmã de 22 anos que trabalhava na mesma empresa, a Foxconn Technology, disseram que ele odiava o emprego no qual estava desde novembro -um turno de 11 horas, sete noites por semana, forjando metal e plástico para fazer peças eletrônicas, em meio a vapores e poeira. Ou pelo menos esse foi o trabalho de Ma até que, em dezembro, uma discussão com seu supervisor o fez ser rebaixado para a limpeza dos banheiros.

O contracheque de Ma mostra que ele trabalhou 286 horas no mês anterior à sua morte, sendo 112 horas extras, cerca do triplo do limite legal. Por tudo isso, mesmo com o adicional de hora extra, ganhou o equivalente a US$ 1 por hora.

"A fábrica estava sempre abusando do meu irmão", disse, chorosa, a irmã dele, Ma Liqun.

Desde a morte de Ma, houve outros 12 suicídios ou tentativas de suicídios em duas unidades da Foxconn em Shenzhen, onde os empregados vivem e trabalham. Essas fábricas, com cerca de 400 mil empregados, produzem para multinacionais como Apple, Dell e Hewlett-Packard.

A maioria dos outros suicidas se encaixa no mesmo perfil: 18 a 24 anos, relativamente novos na fábrica, caindo de um edifício.

A onda de suicídios intensificou o escrutínio sobre as condições de vida e trabalho na Foxconn, maior fornecedor terceirizado de produtos eletrônicos do mundo. Reagindo ao clamor, a Foxconn concedeu nos últimos dias dois grandes aumentos salariais. No último, em 6 de junho, a empresa anunciou que, após um período de experiência de três meses, o salário dos seus operários na China poderá chegar a quase US$ 300 por mês, mais do que o dobro do que era semanas atrás.

Sociólogos e outros acadêmicos veem as mortes como sinais extremos de uma tendência mais ampla: a de uma geração de trabalhadores que rejeita as dificuldades que seus predecessores experimentavam ao compor o exército de mão de obra barata responsável pelo milagre econômico chinês.

Em vez de acabarem com as próprias vidas, muitos operários da Foxconn -dezenas de milhares- simplesmente vão embora. Em entrevistas recentes aqui, empregados diziam que o funcionário típico da Foxconn fica poucos meses na empresa antes de pedir demissão, desmoralizado.

Os operários se queixam de treinamentos do tipo militar, de xingamentos dos superiores e de "autocríticas" que têm de ler em voz alta, além de ocasionalmente serem pressionados a trabalhar até 13 dias consecutivos para completar uma grande encomenda- mesmo que isso signifique dormir no chão da fábrica.

Embora haja na China um limite de 36 horas extras semanais, vários operários contaram que estão acostumados a superar muito esse tempo.

"Eles saem [do emprego] tão rápido porque não conseguem se ajustar à vida na fábrica", disse Wang Xueliu, líder de uma equipe de produção, há seis anos funcionário da Foxconn. Ele também pretende pedir demissão em breve, mas para montar com o irmão uma fábrica de velas para exportação.

Muitas outras fábricas chinesas também enfrentam uma rotatividade elevada. Em todo o sul industrial do país, há uma grave escassez de mão de obra, já que legiões de migrantes rurais, que antes afluíam a esses empregos, agora estão escolhendo outras opções. Muitos buscam o setor de serviços, ou empregos mais próximos de suas cidades.

A Foxconn disse que está tentando oferecer condições mais dignas, mas seu executivo Louis Woo admitiu que há muito por fazer para melhorar o local de trabalho e a cultura administrativa.

A família de Ma Xiangqian negociou uma indenização com a Foxconn, que não quis comentar o caso.

"Ele era meu filho único", disse o pai de Ma Xiangqian, Ma Zishan, um pequeno produtor de plantas e árvores ornamentais vendidas nas grandes cidades. "Filhos únicos são muito importantes no interior. O que eu vou fazer?"



Folha de São Paulo 14/06/2010

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Quase metado dos médicos receitam o que fábrica indica

Quase metade dos médicos receita o que fábrica indica


Dados são de pesquisa inédita do Conselho Regional de Medicina de SP



Quatro em cada cinco médicos recebem visita de fabricantes; desses, 48% indicam remédios sugeridos pela indústria



João Brito - 27.mai.2010/Folhapress



Visitantes com brindes na feira Hospitalar; pesquisa revela que 93% dos médicos receberam benefícios de empresas



CLÁUDIA COLLUCCI

DE SÃO PAULO



Quase metade (48%) dos médicos paulistas que recebem visitas de propagandistas de laboratórios prescreve medicamentos sugeridos pelos fabricantes.

Na área de equipamentos médico-hospitalares, a eficácia da visita é ainda maior: 71% dos profissionais da saúde acatam a recomendação da indústria.

Os dados, obtidos com exclusividade pela Folha, vêm de uma pesquisa inédita do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de SP), que avaliou o comportamento médico perante as indústrias de remédios, órteses, próteses e equipamentos médico-hospitalares.

Feito pelo Datafolha, o levantamento envolveu 600 médicos de várias especialidades, que representam o universo de 100 mil profissionais que atuam no Estado.

Do total, 80% deles recebem visitas dos propagandistas de medicamentos -em média, oito por mês.

A pesquisa revela que 93% dos médicos afirmam ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pagamento da indústria em valores até R$ 500.

Outros 37% declaram que ganharam presentes de maior valor, desde cursos a viagens para congressos internacionais.



RELAÇÃO CONTAMINADA

Para o Cremesp, um terço dos médicos mantém uma "relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos".

"Para boa parte [dos médicos], a única forma de atualização é a propaganda de laboratório. E com ela vem os presentes, os brindes. Isso tomou uma dimensão maior, mais promíscua, quando as receitas passaram a ser monitoradas", diz Luiz Alberto Bacheschi, presidente do Cremesp.

Em 2005, a Folha revelou que, em troca de brindes ou dinheiro, farmácias e drogarias brasileiras auxiliavam a indústria de remédios a vigiar as receitas prescritas por médicos.

Com acesso a cópias do receituário, representantes dos laboratórios pressionavam os profissionais a indicar seus produtos e os recompensavam por isso.

A prática não é ilegal, mas é considerada antiética. Afinal, quem pode pagar essa conta é o paciente. "Na troca de favores, o médico pode receitar um medicamento que tenha a mesma eficácia clínica do que o concorrente, mas que custa mais caro", explica o cardiologista Bráulio Luna Filho, coordenador da pesquisa do Cremesp.



APOIO

A maioria dos médicos (62%) avalia de forma positiva a relação com a indústria.

Para 73% deles, os congressos científicos não se viabilizariam sem apoio da indústria de medicamentos e de equipamentos.

Luna Filho pondera que, com a internet, o acesso a informações médicas está universalizado. "Essa conversa de que médico tem que ir para congresso no exterior para se atualizar é balela. Ele vai é para fazer turismo."

Existem várias normas -inclusive um artigo no novo Código de Ética Médica, uma resolução da Anvisa e um "código de condutas" da associação das indústrias- que tentam evitar o conflito de interesses na relação entre médicos e laboratórios.

"O problema é que não existe um controle rigoroso de nenhuma das partes", diz Volnei Garrafa, professor de bioética da UnB.





Folha de São Paulo, 31/05/2010